quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Os estudos culturais


Os estudos culturais tiveram origem em 1964 na Universidade de Birmingham, questionando a compreensão de cultura dominante na crítica literário britânica. Inicialmente, a cultura era privilégio de um grupo restrito de pessoas, sendo cultura e democracia inversamente proporcionais.
Para Raymond Willians em Culture and Society a cultura deveria ser entendida como o modo de vida global de uma sociedade. Já Richard Hoggart, em seu livro The use os literacy essa definição ampliar-se-ia para a cultura popular, como livros populares, tabloides, rádio, televisão.
Os esforços iniciais do Centro concentravam-se nos estudos das “subculturas” tendo como livros mais importantes: Resistance throgh rituals touth subcultures in post-war Britain, sobre as culturas juvenis britânicas e, Subculture: the meaning of style, por Dick Hebdige. Dessa forma, o Centro passou a se preocupar também com a influência da mídia.
O Centro adotará referências marxistas bem como interpretações contemporâneas do mesmo, como a de Althusser e de Gramsci. Nos anos 80, cede-se lugar ao pós-estruturalismo de autores como Foucault e Derrida.
Duas tendências passam a dividir o Centro: as pesquisas de terreno, sobretudo etnográficas, dando ênfase às “subculturas urbanas” e, as interpretações textuais reservadas para a análise de programas de televisão, refletindo assim as origens disciplinares dos Estudos Culturais: a Sociologia e os Estudos Literários.
Os Estudos Culturais se diversificaram em vários países, enquanto algumas perspectivas continuam marxistas, outras dotam versões pós-estruturalistas. Da mesma forma, há uma versão centrada nas questões de gênero, de raça e de sexualidade.
Primeiramente, os Estudos Culturais concentram-se na análise da cultura compreendida, tal como na conceptualização de Raymond Willians como experiência vivida de um grupo social. Além disso, a cultura é, em certa medida, independente de outras esferas que poderiam ser consideradas determinantes na vida social. Sendo assim, a cultura é um campo onde se define não apenas a forma que o mundo deve ter, mas também a forma como as pessoas e os grupos devem ser, ou seja, é um jogo de poder.
Os Estudos Culturais se distinguem das disciplinas acadêmicas tradicionais pelo seu envolvimento político, visto que, as análises feitas nos Estudos Culturais nunca são neutras, tomando partido dos grupos em desvantagens, intervindo na vida política e social. Eles permitem-nos conceber o currículo como um campo de luta em torno da identidade, podendo ver assim, o conhecimento e o currículo como campos culturais sujeitos à disputa e à interpretação. Desse modo, a “instituição” do currículo é uma invenção social como qualquer outra e o “conteúdo” do currículo é uma construção social.
O pós-estruturalismo faz uma análise do currículo baseada nos Estudos Culturais enfatizando o papel da linguagem e do discurso nesse processo de construção, adotando uma concepção menos estrutural de poder. Já uma perspectiva culturalista procura descrever diversas formas de conhecimento do currículo como resultado de um processo de construção social, buscando focalizar as diversas formas de conhecimento como “epistemologias sociais”, sendo o conhecimento um processo de interpretação social. Assim, ambos os tipos de conhecimento estão envolvidos numa economia do afeto que busca produzir certo tipo de subjetividade e identidade social.
A influência dos Estudos Culturais na elaboração de políticas de currículo e no currículo do cotidiano das salas de aula é mínima, visto que, o conhecimento é um objeto pré-existente e a pedagogia e o currículo consistem simplesmente em revelá-lo.
Uma das consequências da “virada culturalista” na teoralização curricular foi à diminuição das fronteiras entre o conhecimento acadêmico escolar e o conhecimento cotidiano. Ao mesmo tempo em que a cultura em geral é vista como uma pedagogia, a pedagogia é vista como uma forma cultural, podendo comparar assim, os processos escolares aos processos de sistemas culturais extra-escolares, como os programas de televisão ou as exposições de museus.
As instituições e instâncias culturais mais amplas também têm um currículo, mas não em um sentido explícito, tampouco em um oculto, transmitindo uma variedade de formas de conhecimento que são vitais na formação da identidade. Do ponto de vista pedagógico trata-se de formação e de entretenimento que influenciarão no comportamento das pessoas de maneiras cruciais. Entretanto, estes diferem da pedagogia e do currículo escolares, apresentando-se, ao contrário destes, de uma forma irresistível, mobilizando uma economia afetiva que é mais eficaz.
Autores como, Roger Simon, Henry Giroux, Joe Kincheloe e Shirley Steinberg, inauguram aquilo que se poderia chamar de “crítica cultural do currículo”. Henry Giroux se volta para a análise da pedagogia da mídia, como os filmes produzidos pela Disney, por exemplo, problematizando a inocência das produções culturais da mesma. Joe Kincheloe analisa as peças publicitárias do McDonald’s flagrando representações que celebram os valores conservadores de uma suposta família tradicional americana. Shirley Steinberg analisa os valores morais contidos na boneca Barbie, chamando de “kindercultura” a indústria cultural voltada para o público infantil.
O que caracteriza a cena social e cultural contemporânea é precisamente o apagamento das fronteiras entre instituições e esferas anteriormente consideradas como distintas, sendo essa a permeabilidade enfatizada pelos Estudos Culturais, vendo tanto a indústria cultural quanto o currículo escolar como artefatos culturais, tornando a crítica curricular também cultural.


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